Sábado, 3 de Fevereiro de 2007

Os rios que andam para trás

Eólicas e hídricas complementam-se ao nível da produção

 

“A noite passada, aqui na Aguieira, só tivemos 15 minutos de bombagem, o que é claramente insignificante, mas a ex plicação é simples:  uma vez que se prevê muita chuva para o fim-de-se- mana há que guardarespaço na albufeira para as águas que aí vêm”.  José Franco, director do Depart mento de Produção Hídrica da EDP, explica que caso não houvesse previsão de chuva intensa, provavelmente a bombagem - processo pelo qual se volta a colocar água na albufeira, invertendo o sentido das turbinas  - teria tido outro significado.

Numa pequena sala contígua ao sopé do paredão da barragem, situada perto de Penacova, José Franco fala das especificidades daquela infra-estrutura.

Desde logo - sublinha - foi feita para acautelar as situações de cheias na cidade de Coimbra. No entanto, a Aguieira é também uma das barragens nacionais com mais capacidade instalada de produção de energia hídrica (336 MW/hora).

Outra das particularidades desta obra de engenharia dos anos oitenta é que se trata de uma das cinco barragens que pratica a bombagem. Ou seja, que durante a noite, quando a energia é mais barata, em vez de a estar a produzir para injectar na rede a utiliza antes para sugar água da pequena albufeira que lhe sucede (a da Raiva, cujo paredão se situa cerca de 12 quilómetros mais à frente), voltando a colocá-Ia no seu próprio reservatório.

O processo até já nem é novo. O que é , realmente inovador é o facto de a energia

gasta naquela operação provir dos parques eólicos, cuja actividade, curiosamente, costuma ser mais significativa à noite, altura em que os ventos normalmente sopram com mais intensidade.

 

“Tesouro” hídrico subaproveitado

 

Durante o dia, quando a procura de electricidade é maior e o seu preço é mais elevado, a Aguieira produz energia eléctrica para vender. À noite, quando o consumo é muito baixo e há um excesso de produção por via das eólicas, aproveita-se o facto de ela ter um custo menor para se bombear a água para trás. Como diz Carlos Pimenta, especialista em questões energéticas, "põe-se o rio a andar ao contrário". "Já que não se pode armazenar a energia, armazena-se a matéria-prima, que é a água, mesmo que já tenha sido utilizada no dia anterior", explica António Eira Leitão, secretário-geral do Conselho Nacional da Água e director da “Hidroerg”, uma empresa independente presente nas mini-hídricas.

Miguel Barreto, director-geral de Geologia e Energia, garante que, no processo de bombagem se recupera 80% do custo dessa operação com a reutilização da água e que a perda é de apenas 20%. Este responsável refere ainda que estamos claramente perante uma alternativa a seguir, tanto mais agora que as eólicas começam a ganhar expressão em Portugal, no domínio das energias alternativas: "Se temos vento que nos dá energia a baixo custo e se, com ela, temos a possibilidade de reutilizar a água dos rios para a produção de mais energia, que pode ser vendida nas horas de ponta, então não podemos desperdiçar este nosso verdadeiro “tesouro” hídrico que quando cai do céu se limita a correr para o mar. Temos que o trabalhar tanto quanto possível".

José Franco vai mais longe e não tem dúvidas em afirmar que estamos na presença de um casamento perfeito entre aqueles dois modos de produção de energia. Ou, por outro lado, sugere ainda que "as hídricas são uma espécie de abono de famllia das eólicas". O seu colega António Castro, administrador da EDP Produção, acrescenta que "se à noite havia vento e não havia consumo, só tínhamos duas alternativas: ou desligávamos as eólicas ou as centrais térmicas. Como estas levam horas a retomar a produção, não se desligam. Assim sendo, tínhamos que arranjar uma solução para consumir a energia das eólicas. A solução está encontrada. Ou seja, servem para complementar o funcionamento das hídricas através da bombagem e encaixam-se na perfeição".

 

Enxurrada de milhões esperada no sector

 

A EDP tem um pacote de investimentos superior a mil milhões de euros, só para a bacia do Douro. No total, serão aplicados 3,6 mil milhões

O presidente-executivo da EDP, António Mexia, já tinha chamado à atenção, há cerca de três semanas, na cerimónia de lançamento do projecto das Eólicas de Portugal, para o facto de o potencial hídrico nacional estar apenas aproveitado a 52%: "Não é normal que não o utilizemos, pois essa energia tem um custo marginal, praticamente nulo".

E dava ainda como exemplo o caso do rio Douro, que considera gritante: "basta dizer que 94% da capacidade de armazenagem deste rio está em Espanha e 6% em Portugal. Quando chove, Portugal retém 6 a 7%, enquanto Espanha consegue reter quase 60%".

Miguel Barreto, director-geral de Geologia e Energia, acompanha o presidente da EDP no racio- cínio e sublinha que "não se pode adiar mais a questão do Douro. O que está a acontecer é um desperdício imperdoável".

Só da parte da EDP estão previstos e calendarizados investimentos superiores a mil milhões de euros na bacia do Douro, sendo o projecto mais volumoso o do aproveitamento do Baixo Sabor, que representa um investimento de 322 milhões de euros. Todas as obras propostas pela EDP deverão ocorrer ao longo dos próximos oito anos, assim não haja atrasos nos respectivos licenciamentos.

António Mexia critica, aliás, a morosidade de decisões nacionais sobre projectos de grandes hídricas: "Não podemos continuar, como tem acontecido até agora, a esperar 25 anos pelo licenciamento de um projecto".

Além do Baixo Sabor, que é uma construção de raiz, existem ainda os projectos de Foz Tua (237 milhões de euros) e Linhares (150 a 200 milhões de euros), e os reforços de potência no Picote (132 milhões) e na Bemposta (131 milhões de investimento).

 

Investimento reprodutivo

 

António Eira Leitão, da “Hidroerg”, fez as contas e chegou à conclusão de que, mesmo que Portugal só aproveite dois terços do potencial hídrico não explorado, isso pode gerar um volume de investimentos da ordem dos 3,6 mil milhões - mais do que o necessário para construir um aeroporto semelhante ao da Ota.

Mas os efeitos destes investimentos terão ainda um reflexo significativo ao nível da criação de emprego. Eira Leitão conclui que, directa e indirectamente, serão criados 10800 postos de trabalho. No entanto, os efeitos daqueles investimentos estender-se-ão também ao domínio do ambiente.

Ou seja, com o aumento da potência hídrica instalada, Portugal deixará de emitir 5,4 milhões de toneladas de C02 por ano, pois estamos a falar de uma energia limpa. No total, isto representará uma economia de 800 milhões de euros anuais. Por outro lado, aquele especialista em energia hídrica estima ainda que, com esta aposta nas hidroeléctricas Portugal poupará 665 milhões de euros por ano em importações de petróleo.

Apesar de todas as vantagens apresentadas, Eira Leitão reconhece, porém, que a questão ambiental continua a ser um dos principais entraves à concretização deste tipo de investimentos: "O processo acaba por ser muito moroso e desmotivador".

 

 

Prós:

- Gera energia limpa cuja produção não emite C02 (aliás, no caso português, pode significar a não emissão de 3,9 a 7,6 milhões de toneladas/ano de C02) e não gera qualquer espécie de resíduos;

- Ajuda a diminuir a dependência energética do exterior,  visto que se recorre a recursos naturais endógenos (evitam a necessidade de importar 3,2 milhões de toneladas/ano de carvão ou de 1800 milhões de metros cúbicos de gás natural);

- A sua produção assenta em tecnologias consideradas seguras e testadas;

- Cria emprego, de forma directa e indirecta, e ajuda à fixação de população activa ém locais do interior;

- As barragens ajudam à regulação dos caudais e na protecção contra as cheias;

- Representam uma reserva operacional de energia, com disponibilidade imediata;

- As centrais hidroeléctricas são as únicas que podem responder satisfatoriamente às ocorrênóas acidentais e, além disso, asseguram facilmente as variações normais de carga;

- As barragens disponibilizam água para a agricultura;

- Podem ter utilização turística (casos de Castelo de Bode e da Caniçada);

- Potenciam, regra geral; a criação de espaços aprazíveis nas suas margens, com elevadas potencial idades para suporte de um conjunto diverso de actividades de recreio e lazer.

 

Contras:

- Durante a fase de construção das infra-estruturas das barragens, os estaleiros de obras geram um impacto visual negativo;

- As albufeiras provocam alterações na paisagem e a modificação de alguns «habitats». Potenciam a diminuição da biodiversidade e a destruição de algum património cultural, suscitando problemas sociais;

- Originam a alteração de alguns ecossistemas aquáticos ribeirinhos e uma violenta perturbação da dinâmica fluvial em geral com interferência no ciclo natural dos processos erosivos e sedimentares;

- Há uma diminuição da qualidade da água do rio intervencionado devido ao aumento da temperatura e consequente diminuição do oxigénio dissolvido;

- Potenciam o desenvolvimento excessivo de cinobactérias com graves consequências do ponto de vista da saúde pública, associado a um elevado período de residência da água;

- Provocam uma inundação de terrenos agrícolas de elevada fertilidade;

- Originam deslocação de populações humanas (casos da aldeia da Luz no Alentejo ou Vilarinho das Furnas, no Alto Minho. Em todo o mundo 40 a 80 milhões de pessoas terão sido deslocadas devido à construção de barragens).

 

 

 

Barragens portuguesas que produzem mais energia (MW):

Alto Lindoso - 630

Miranda - 369

Aguieira - 336

Bemposta - 240

Valeira - 240

 

Barragens mundiais que produzem mais energia (MW):

Três Gargantas – China – 18200

Itaipu – Brasil/Paraguai – 12600

Guri – Venezuela – 10300

Sayano-Shushenk – Rússia – 6400

Grand Coulee – EUA – 6180

Krasnoyacsk – Rússia – 6000

Church Falls – Canadá – 5428

Bratsk – Rússia – 4500

Ust-llim – Rússia – 4320

 

 

Artigo publicado do dia 25 de Novembro de 2006, do semanário Expresso


publicado por Projecto EA às 22:32
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1 comentário:
De Energias renováveis a 28 de Dezembro de 2010 às 21:36
A EDP tem feito um excelente trabalho relativamente a energias renováveis mas falta colaboração e incentivos para que esta forma de energia dê um salto.

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